O Capítulo do Ozempic, Mounjaro e GLP-1 na História do Seu Restaurante
Vamos começar do começo.
O que é o GLP-1?
GLP-1 (Peptídeo Semelhante ao Glucagon-1) é um hormônio natural produzido no intestino após as refeições, essencial para regular o açúcar no sangue, estimular a insulina e aumentar a saciedade.
Os medicamentos agonistas de GLP-1 são aqueles que mimetizam essa ação natural e duram muito mais tempo no organismo. O mecanismo é simples de entender: eles imitam o hormônio GLP-1, que sinaliza saciedade ao cérebro, retarda o esvaziamento gástrico e reduz drasticamente o apetite. O resultado prático para quem os utiliza é que pequenas quantidades de comida já geram satisfação.
Ozempic, Mounjaro e Wegovy são os mais conhecidos. Mas a lista já é longa — e deve crescer muito em breve com a quebra das patentes.
O impacto nos hábitos alimentares — e no comportamento de consumo em bares e restaurantes — é inevitável.
As pessoas vão parar de sair para comer? Café da manhã, almoço ou jantar: qual é a refeição fora de casa que será mais afetada? Preciso aumentar as opções de mocktails e proteínas?
Vamos por partes.
Muita coisa está mudando.
Pesquisamos bastante — com nossos clientes dentro e fora do Brasil, além de relatórios e matérias internacionais — e trazemos aqui os insights que vão te ajudar a entender o cenário.
O que temos de concreto é que essa onda já chegou. Alguns já estão surfando. Outros ainda esperando.
Vamos destrinchar cada ponto.
O tamanho do fenômeno: números que nenhum gestor pode ignorar
Os dados globais são expressivos. Os gastos mundiais com medicamentos GLP-1 ultrapassaram os US$ 54 bilhões em 2024, e o mercado pode chegar entre US$ 100 e US$ 150 bilhões anuais até 2031 — comparado a apenas US$ 2,4 bilhões em 2021. Nos Estados Unidos, entre 12% e 15% dos domicílios já têm ao menos um usuário dessas medicações, representando entre 45 e 50 milhões de pessoas. Num país onde 42% dos adultos são obesos — 110 milhões de pessoas — o potencial de crescimento é estrutural.
O impacto no consumo alimentar já é mensurável: os gastos com alimentos caem em média 5,3% após o início do tratamento — e chegam a 8,2% em domicílios de renda mais alta, exatamente o perfil que mais frequenta restaurantes. 73% dos pacientes em tratamento relatam comer menos, e 85% desenvolvem aversão a gordura, açúcar ou álcool.
No Brasil, o crescimento também é acelerado. E não precisamos de relatório para sentir isso — quem esteve no Réveillon ou no Carnaval esse ano notou: os "novos magrinhos" chamaram atenção. Você também percebeu, né?
Estimativas apontam para centenas de milhares de pacientes em uso contínuo mensal — concentrados, em sua maioria, nas faixas de renda média e alta das grandes capitais. Exatamente o perfil de cliente que frequenta restaurantes.
A verdade é: O seu público já está tomando o remédio
Este é o ponto central que muitos empreendedores ainda não internalizaram: o público que usa GLP-1 não é outro público. É o seu público. Trata-se de consumidores de renda média-alta, com rotina urbana intensa, acesso à saúde preventiva e disposição para gastar com experiências gastronômicas de qualidade.
São exatamente as pessoas que frequentam restaurantes autorais, pizzarias artesanais, bares de cozinha contemporânea e casas de alta gastronomia.
O que muda não é o desejo de sair para comer. O que muda é a capacidade de consumo por refeição. Estudos indicam que usuários de GLP-1 diminuem o número de itens pedidos por visita em apenas 1% — mas migram de acompanhamentos para pratos principais e aumentam a demanda por vegetais, frutas e itens com alto valor nutricional.
Como o mercado está respondendo: lições dos EUA, Europa e Brasil
A resposta do mercado já está acontecendo — e revela padrões interessantes em três geografias distintas.
#1-Primeiro insight: torne seu prato apetitoso e saudável. Fartura e custo-benefício deixaram de ser o argumento principal.
Reflexão: o cliente está mais seletivo, mas continua disposto a pagar bem por uma experiência que justifique a saída. Quem entender isso antes vai sair na frente.
Estados Unidos: Grandes Redes Reescrevem o Cardápio
O mercado americano foi o primeiro a reagir em escala, e os casos das grandes redes são um mapa de referência para qualquer empreendedor que queira antecipar o que chegará ao Brasil.
Chipotle lançou o "High Protein Cup", com itens variando entre 15 e 81 gramas de proteína. A cadeia apostou em um menu de alto teor proteico e baixo carboidrato, criando uma linha específica para o comportamento alimentar dos usuários de GLP-1 sem precisar mencionar os medicamentos explicitamente.
Shake Shack lançou o "Good Fit Menu", com hambúrgueres sem pão que entregam até 52 gramas de proteína por unidade. A comunicação reforça performance e bem-estar — não dieta, não privação.
Olive Garden introduziu um menu de "lighter portions", com porções reduzidas a preços menores. A rede fez uma aposta direta na equação volume-preço, reconhecendo que parte do seu público não quer mais — e não consegue comer — os pratos tradicionais da casa.
Subway adicionou os "Protein Pockets" ao cardápio, uma versão compacta e proteica dos sanduíches tradicionais. Formato menor, proposta nutricional clara, sem abrir mão da conveniência que é o DNA da marca.
Smoothie King foi ainda mais direta: lançou um menu oficialmente chamado de "GLP-1 Support", com opções desenvolvidas para complementar o tratamento — focadas em nutrição densa, proteína e ingredientes funcionais. Uma das poucas redes a nomear explicitamente o medicamento na comunicação.
O padrão que emerge dessas iniciativas não é simplesmente "porções menores". É flexibilidade e proteína. Como resumiu o CEO de um grupo de hospitalidade nova-iorquino: "Não estamos encolhendo os pratos. Estamos mudando como os clientes querem comer." A demanda não é por menos — é por diferente.
Mas nem todos estão aderindo. O famoso chef Gordon Ramsay declarou publicamente que não vai oferecer menus GLP-1 em seus restaurantes, chamando a ideia de absurdo. Sua posição representa uma aposta no cliente que valoriza a experiência plena, sem concessões. É uma escolha legítima — mas que exige ter clareza sobre quem é o seu público e qual o posicionamento da casa.
#2-Segundo insight: Não é obrigatório seguir a manada, nem é aconselhável. Entenda seu público, observe e converse com ele. Veja se faz sentido ou não.
Europa: Luxo em Doses Menores
Na Europa, a tendência chega com uma camada adicional de sofisticação. Restaurantes de alta gastronomia em Londres e outras capitais europeias lançaram menus específicos que prometem "toda a experiência do luxo em menor volume". A proposta não é de privação — é de curadoria. Pratos menores, com ingredientes nobres, apresentados de forma cuidadosa e cobrados proporcionalmente. Estabelecimentos com estrelas Michelin já oferecem formalmente opções de degustação reduzida com enquadramento explicitamente voltado ao bem-estar e à consciência alimentar.
#3 Terceiro insight: a redução do volume não precisa implicar redução de ticket. Pelo contrário, pode elevá-lo — desde que a proposta de valor seja construída corretamente.
São Paulo: Adaptação discreta, mas estratégica
Na capital paulistana, restaurantes de diferentes perfis começaram a notar mudanças no comportamento de mesa: grupos maiores dividindo o mesmo prato, menor consumo de álcool e demanda crescente por versões reduzidas de pratos tradicionais. Casas que historicamente vendiam porções generosas começaram a oferecer opções menores — não como substituição, mas como alternativa estratégica de cardápio. Os operadores preferem enquadrá-las dentro de conceitos como "experiência de degustação", “omakase" ou "porções para compartilhar".
CONCLUSÃO
O GLP-1 é mais um capítulo. O seu restaurante é a história.
Vocês, chefs e empreendedores, sabem melhor do que ninguém: tendências vêm e vão. Mas restaurantes vão além. Sempre foram além.
Sentar à mesa de um café, restaurante ou bar é socialização, experiência, descontração, reunião, encontro, conversa e às vezes até reflexão. Isso não cabe em nenhuma bula — e nenhum medicamento muda.
O que é fundamental, no entanto, é entender o que está acontecendo ao redor e ter a capacidade de se adaptar sem perder a essência. O que sustenta um negócio de verdade não é a tendência que você seguiu — é a reputação que você construiu, a comunicação que você manteve consistente e o diferencial que ficou claro para o seu cliente ao longo do tempo.
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